Somos a geração do mimimi ou a geração que está acabando com ele?

Os “Millenials” são a geração do mimimi ou a que está pondo um fim a velhos hábitos que não precisam mais nos acompanhar?

Abrimos a “Caixa de Pandora” dos problemas psicológicos; é preciso ser muito forte, muito corajoso, para dizer que não está bem.

Eu ia escrever sobre outro assunto para a minha primeira coluna, algo mais “político” mesmo… mas uma postagem de um familiar me fez mudar o assunto. Era uma postagem que dizia “como eram bons os tempos em que não existia Conselho Tutelar, não tinha ladrão, nem maconheiro, nem mimimi”. Fiquei chocada; como é que alguém que tem estudo (como eu sei que a pessoa tem) posta uma coisa dessas? O Conselho Tutelar é o que protege crianças contra pedófilos e outros abusos, como alguém dizer que era “melhor” o tempo em que ele não existia? Mesma coisa quem fala mal dos Direitos Humanos, dizendo que “só defendem bandido”… pessoas sem a mínima noção de que são os Direitos Humanos que nos protegem contra trabalho escravo, tortura e condenação sem julgamento, só citando alguns exemplos. Lá fui eu tentar chamar meu parente à razão, e acabo sendo vista como a chata problematizadora, a representante da “geração mimimi”.

E eu digo sem medo de ser inapropriada: “mimimi” são vocês que dizem isso.

Nossa geração, chamada de “millenials” por termos nascido entre os meados dos anos 80 e o comecinho dos 2000 (a virada do milênio), foi a que desbravou terrenos de que vocês nunca tiveram coragem nem de chegar perto. Abrimos a “Caixa de Pandora” dos problemas psicológicos; é preciso ser muito forte, muito corajoso, para dizer que não está bem. Faz parte (ou fazia) do “ritual de passagem” para a vida adulta aparentar ser inabalável, em total controle de suas emoções, medos e traumas. E o que os Millenials fizeram? Disseram “sabe esse “ritual de passagem” de vocês? Ele não significa nada para nós, não precisamos dele, vamos rasgá-lo e jogar no lixo, podemos dizer que somos adultos sem precisarmos ficar nos reprimindo”. E foi isso o que deixou alguns membros das gerações anteriores com dor de cotovelo: jogamos na cara de todo mundo que todo esse esforço (sim, porque é um esforço desnecessário fingir que está tudo bem quando não está) para reprimir seu lado frágil é inútil e não tem mais valor simbólico nenhum para nós e as gerações a seguir. Foi algo como “então todo o nosso esforço para parecermos pessoas seguras e bem resolvidas foi em vão? Todo esse simbólico que construiu nossa identidade como adultos não vale mais nada? Malditos millenials, vou acabar com vocês, tiraram o sentido da minha vida!”.

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Claro, há algumas atitudes (principalmente políticas) de minha geração que me desagradam, como o excesso de subjetivismo político (isso é assunto pra outro texto); mas isso não invalida nossas conquistas. Em uma cruzada contra a hipocrisia, tiramos de debaixo do tapete a sujeira que existe em muitos relacionamentos familiares, por exemplo. Por trás do discurso de “família sagrada” e “amor incondicional” há narcisismo, homofobia, machismo, violência, opressão de classe social, gaslighting (quando alguém manipula uma pessoa a ponto dela duvidar da própria sanidade), romantização da maternidade, preconceitos de várias formas, entre outros problemas que ficavam ocultos sob o manto sagrado da família nuclear. E não pensem que foi fácil fazer isso; revelamos para o mundo e para nós mesmos que o lugar onde deveríamos ter nossos alicerces emocionais muitas vezes nos destrói! Ter contato com essa terrível verdade não é fácil para ninguém; e por isso que muitos de nós sofrem de transtornos depressivos e de ansiedade. Com o “bônus” de sermos a geração mais bem educada e mais mal paga, tendo assim dificuldade para sair de perto dessa família problemática.  Duvido que os que nos chamam de “mimimi” teriam peito pra fazer isso. Sabemos, felizmente, que todas essas sombras que foram reveladas e estão agora nos adoecendo são uma fase de transição; uma hora, vai parar de sair sujeira de debaixo do tapete, e vamos deixar tudo mais ou menos limpo para as gerações futuras.

geração mimimi

Então, meus caros, antes de sair falando sobre como a dureza dos tempos antigos era boa,sobre a necessidade de uma “mão de ferro” para resolver tudo, sobre como para você algumas formas de justiça são “frescura” (como o Conselho Tutelar, por exemplo), sobre os “jovens de hoje” não “aguentarem nada”… pense se quem “não está aguentando” é você.

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Petra Schindler

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