Preconceitos burgueses

Vou muito na linha Petersoniana de que as pessoas que conseguem subir ao topo de hierarquias existentes são aquelas cujo temperamento é o de aceitar as premissas que fundamentam a hierarquia. Isto é, pessoas bem-sucedidas acreditam na hierarquia no topo da qual se encontram. Se uma determinada hierarquia socialmente constituída só recompensar “trabalho duro”, por exemplo, no lugar de “criatividade”, é óbvio que as pessoas que serão bem-sucedidas nessa hierarquia são aquelas dispostas a se submeter ao trabalho duro e não necessariamente as mais criativas. Aquelas que se recusam a trabalhar duro, tanto porque não conseguem trabalhar duro ou, então, porque não acreditam, em um nível intelectual, que hierarquias deveriam ser firmadas em “trabalho duro”, ficarão de fora do topo dessa hierarquia. Isso pode os levar a querer firmar suas próprias hierarquias, onde as características que valorizam são as determinantes das recompensas – uma hierarquia que recompense a “criatividade”, por exemplo.

O que se viu ao longo do desenvolvimento do capitalismo, no século XIX, foi que novos valores, “burgueses”, passaram a ser valorizados – trabalho duro, produtividade, acumulação, frugalidade, auto-restrição. Ao mesmo tempo, esses mesmos valores começaram a ser rapidamente criticados. À medida em que pessoas que continham esses valores acumulavam-se no topo da hierarquia social e material, acumulando dinheiro e posições de influência política, surgiam pequenos enclaves de pessoas revoltadas com a nova tábua de valores e que queriam construir sistemas diferentes baseados em outros valores. Karl Marx, os primeiros socialistas utópicos, os primeiros anarquistas e outros datam do século XIX, em resposta à nova sociedade industrial. O que me impressiona é a velocidade com que isso ocorreu – tão logo o capitalismo industrial instalou-se definitivamente, no século XIX, as correntes contrárias ao seu modo de viver organizaram-se.

De qualquer forma, naturalmente, as pessoas que se estabeleceram no topo da nova hierarquia capitalista – os “burgueses” – desenvolveram novos preconceitos sociais. Para alguns acadêmicos, o capitalismo encontra-se entrelaçado a esses preconceitos burgueses devido a essa formação que ocorreu no século XIX, na gênese capitalista. Os preconceitos mais comumente associados ao capitalismo e à burguesia emergente do século XIX são preconceitos contra grupos canônicos dos movimentos sociais da década de 60: mulheres, gays e negros. Na minha leitura, o desenvolvimento desses preconceitos é devido a três fatores diferentes.

O primeiro fator é o de interesse econômico. É o fator mais enfatizado pelos acadêmicos anti-capitalismo, que relacionam o capitalismo à presença de alguns preconceitos na sociedade. Em termos Marxistas, a base econômica – o capitalismo – leva ao surgimento de uma superestrutura – valores culturais – a partir das atitudes da classe dominante – burguesia – e sua inter-relação com a base econômica. Era de interesse dos capitalistas que houvessem determinados preconceitos vigentes na sociedade.

Ao mesmo tempo, existe um segundo fator: o de que esses mesmos burgueses só ascenderam à posição de burgueses porque já se identificavam com esses preconceitos em primeiro lugar. Para que se enriquecesse no novo sistema econômico, a identificação com esses valores era de suma importância. E se as pessoas no topo da hierarquia social conseguem influenciar, em maior ou menor grau, seus próprios preconceitos ao resto da sociedade, as pessoas que enriqueceram em uma sociedade capitalista – as que já se identificam com a ética de trabalho, determinados estilos de vida e valores – influenciarão esses mesmos valores para o resto da sociedade.

Em terceiro lugar, é sabido que, mesmo anterior à ascensão da classe burguesa, a sociedade já possuía alguns desses preconceitos, que em grande parte se deviam à tradição cristã e à própria tradição ocidental. A sociedade patriarcal, sexualmente puritana e racialista já existia, por exemplo, anteriormente à ascensão da burguesia.

A inter-relação entre esses três fatores – interesse econômico, identificação com certos valores, pré-existência de preconceitos – levaram ao surgimento de determinados preconceitos burgueses.

Ao meu ver, a libertação desses preconceitos burgueses, que vinha sendo lentamente preconizada a partir dos escritos do século XIX e do início do século XX, críticos à burguesia, aos seus valores e ao sistema vigente, só foram encontrar sua explosão na década de 1960. É por isso que sou tão fascinado por aquele período. Eram pessoas deslocadas pela hierarquia vigente. Seu grito não me parece ser o de inclusão dentro da hierarquia vigente; mais precisamente, era o grito para que as hierarquias ajustassem-se ao seu modo de vida.

Lucas Franceschi
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