Paladinos do Merthiolate Ardente

Paladinos do Merthiolate Ardente

Neste mês das crianças, não podia deixar de abordar este assunto que tanto me incomoda. Nostalgia é bom, muito bom; conhecemos boa parte das nossas paixões e hobbies ainda na infância. O problema começa quando lembrar-se dos bons tempos significa rejeitar tudo, absolutamente tudo, o que é novo, e defender tudo, absolutamente tudo, o que é da sua época, inclusive ideias retrógradas que a sociedade já está superando.  Dei um apelido carinhoso a estes nostálgicos tóxicos: Paladinos do Merthiolate Ardente.

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A postagem que me fez declarar guerra a esta ordem de “Paladinos” foi uma que diz que “no meu tempo eu apelidava meus amigos, eles me apelidavam, e ninguém sofria de “bullying”. Que infância boa!”, menosprezando totalmente a coisa séria que pode ser o bullying, em honra dos “tempos dourados”. Passei por isso de forma bem pesada, em nível de ter que procurar esconderijos no recreio pra ficar em paz com meus amigos na escola, porque senão nos perseguiam e ficavam, cantando musiquinhas, zombando de nós. E, claro, reclamávamos para as pedagogas, e nada era feito, tratavam isso como “bobeira de criança”.

Não é verdade, queridos Mancheteiros (boa parte dos Paladinos do Merthiolate é da época dos animes e tokusatsus da Manchete), que tudo da época é ruim. Pode até ser que a criatividade de algumas obras atuais tenha caído um pouco, e sejam produzidos em menor quantidade; mas temos coisas muito boas hoje, como My Little Pony, Hora da Aventura, Show da Luna e Miraculous Ladybug.

Fora que boa parte das coisas antigas continuam sendo valorizadas: as TVs a cabo tem a TV Rá-Tim-Bum; lá passam os clássicos infantis da TV Cultura e similares. Mas são duas coisas BEM diferentes você dizer “as coisas de hoje parecem ter menos “alma” do que tinham no meu tempo… por que será? Será que algo realmente se perdeu?”, e “criançada frouxa alienada, não existe mais infância, vão crescer e ficar perdidos na vida, só conseguem ver desenho de retardado, na minha época o Pica pau usava arma no desenho e ninguém virou bandido”, etc, etc. Pense duas vezes antes de rever a abertura de Cavalo de Fogo e dizer “essas crianças de hoje não sabem o que é bom”.

Provavelmente um parente mais velho já disse isso a você um dia. Essa atitude não deixa de ser uma forma que sua insegurança encontra para se autopromover de forma destrutiva às custas da geração mais nova (e mais indefesa), o que, convenhamos, é BEM tóxico.

E, claro, tocar nos clássicos é imperdoável, como quando fizeram o Caça-Fantasmas com as 4 mulheres e teve um chororô enorme (achei o filme até bom, não é tudo isso de ruim que falaram; só achei algumas cenas de humor um pouco canastronas, como é de praxe em muitos filmes americanos). Inclusive, em uma das cenas, uma das moças está na universidade e passa por um busto do Egon, um dos Ghostbusters tradicionais; ali, era como se as garotas estivessem dando continuidade ao trabalho do quarteto original, não substituindo-os. Mas nããão, “vocês querem destruir o clássico, suas feminazis satânicas, tirem as mãos da minha frágil infância que no fundo não acabou ainda”.

Ouça o episódio do Braincast O negócio da nostalgia

Inclusive, algumas falas do filme dão excelentes indiretas para estes embustes. Outro exemplo foi The Last Jedi: o que fizeram com o arco do Luke foi fantástico, transformando-o em um herói trágico e sábio, explorando as fraquezas psicológicas dele (que são uma marca da famíla Skywalker, dá pra ver isso no próprio Anakin) e lá vieram os Paladinos dizer que “estragaram meu Luke herói perfeito e inabalável”.

Na mesma postagem do “que infância boa” citada anteriormente, havia também referências nostálgicas a uma mãe que ficava com o chinelo na mão e mandando o filho ir “pra dentro”. Paladinos do Merthiolate Ardente adoram ficar falando de remédio que arde, de chinelada, de mãe sendo agressiva (tem que repreender os filhos sim, mas não tem coisa melhor sobre a mãe pra colocar em postagem nostálgica não? Mães não tóxicas não sentem alegria nenhuma em brigar com os filhos)… Merthiolate não arde mais: aceitem, que (literalmente) dói menos. Parem de se agarrar à infância sendo nostálgicos até com as coisas ruins dela. Quando a nostalgia é tóxica, Freud explica.

Petra Schindler

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