O ÍNDIO TRAJADO DE DIABO !

Como os jesuítas transformaram a cultura indígena?

A cultura tem poderosas ferramentas para transformar a si mesma, o teatro durante séculos foi uma importante ferramenta de transformação cultural, no texto O ÍNDIO TRAJADO DE DIABO, discorro sobre como a igreja transformou a cultura indígena com o teatro

O teatro na imposição de uma cultura

No período colonial os jesuítas vieram ao Brasil com o propósito de catequizar os indígenas, mas havia desafios a serem superados para se substituir as crenças locais pela mitologia cristã.

Nesse cenário a Companhia de Jesus fez adaptações na forma de transmitir a sua mensagem no “Novo Mundo”, entre elas adotou aspectos teatrais em suas pregações e promoveu encenações que usavam conceitos e imagens mais facilmente reconhecíveis pelos nativos. Sendo assim, o teatro desempenhou um papel importante na sobreposição da cultura europeia sobre as várias culturas que existiam no Brasil.

Paraíso repleto de bárbaros

Ao analisar os primeiros escritos dos europeus que pisaram no solo das terras que hoje conhecemos como Brasil, é no mínimo curioso observar que majoritariamente se identificam duas visões sobre o “Novo Mundo”, percepções opostas, mas ambas repletas do mito cristão. Por um lado, desde Pero Vaz de Caminha, há passagens de textos que destacam as maravilhas naturais, a fertilidade e o clima da região, associando este local ao Jardim do Éden de onde a humanidade foi expulsa após o pecado inicial cometido por Adão e Eva.

Porém a terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Doiro e Mínho, porque, neste tempo de agora, assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas: infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.[1]

Porém a terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Doiro e Mínho, porque, neste tempo de agora, assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas: infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.[1]

[1] CAMINHA, 2000; p. 14

Por outro lado, os brasis é frequentemente apresentado como um local dominado por bárbaros e selvagens, de um povo adepto de práticas demoníacas. Ou seja, bastasse que os indígenas mostrassem alguma resistência a catequese que rapidamente passavam de criaturas puras do Éden para seres diabólicos. Duas visões que certamente influenciam o imaginário que ainda se tem sobre o Brasil, País Tropical e Terra do Carnaval.

A chegada dos jesuítas

Em 1549, com a expedição de Tomé de Souza, chegam os primeiros jesuítas da Companhia de Jesus com a missão de catequizar os povos originários e levar até eles os costumes europeus, isto não só por interesses religiosos, visto que religião é comumente associada a interesses econômicos. Inclusive, esta organização surgiu na Contra Reforma Católica para barrar o avanço do Protestantismo pelo mundo, já que a perda de domínio religioso representaria menor poder econômico.

No Brasil o trabalho de catequização enfrentou resistência dos nativos principalmente porque conceitos da fé cristã não eram compreensíveis nem mesmo nas tribos simpáticas ou dominadas pelos portugueses. Além da tradução do idioma português ou espanhol para uma língua local, o desafio estava em transmitir conceitos que simplesmente não existiam no imaginário indígena. Por exemplo, os deuses das tribos eram visíveis e atrelados a natureza, como o Sol, a Lua, o vento, a noite, as estrelas, mas o deus cristão não é materializável pelos sentidos humanos, este existe apenas em pensamento. Outra coisa difícil de entender é a noção de “divina trindade”, segundo esta ideia deus é composto por três pessoas distintas, mas que ao final representam o mesmo ser.

Estratégias de conversão

A violência física esteve presente na conversão dos povos originários, porém a imposição de um mito sobre outros não ocorreu apenas com o uso da força. A Companhia de Jesus teve de se adaptar e buscar estratégias para se comunicar efetivamente com os índios e, em algumas situações, podem ser percebidas outras formas de violência mais sutis para se conseguir a doutrinação de um povo.

Os principais adversários para a conversão eram os pajés, pois os jesuítas teriam de assumir o seu lugar na substituição de uma mitologia por outra. Sendo assim, ao ganharem a confiança dos índios, os jesuítas assumiriam a função do pajé. Eles tinham a consciência de que para obterem o êxito, era necessário que os povos nativos fizessem essa associação.

Muitos adotaram a doutrina europeia, embora, segundo o historiador Alex Carvalho:

…os missionários tiveram de lidar com interpretações alternativas que os índios faziam da doutrina cristã, as quais os padres não podiam evitar de todo, porque dependiam dos conceitos disponíveis nas línguas locais e de auxiliares nativos para fazer avançar a conversão.

Para traduzir a fé cristã aos nativos, os jesuítas precisavam dialogar com os indígenas e inicialmente utilizaram os colonos como intérpretes, já que eles conheciam os ensinamentos católicos e dominavam com certa facilidade a língua tupi. Entretanto essa parceria não durou muito tempo, pois os missionários disputavam com os colonos a mão de obra que eles queriam escravizar.

Outra solução encontrada foi a de formar intérpretes entre os próprios índios, mas esta tática  tampouco foi bem-sucedida, pois entre os formados surgiram pessoas hostis ao discurso cristão e que disseminaram esta oposição a outros povos.

Por fim, a Companhia de Jesus decidiu que a conversão deveria ocorrer sem a participação de intermediários, por isso os jesuítas tiveram de aprender a língua indígena e pouco a pouco adquiriram a independência de intérpretes, o que mais tarde culminou como algo decisivo para a sistematização do Tupi e com a publicação da Arte de Grammatica de José de Anchieta, em 1595, e do Catecismo na Língua Brasílica, de Antônio de Araújo em 1618.

Além do uso da roupagem simbólica do adversário e de adaptações linguísticas, os primeiros jesuítas se valeram de elementos teatrais rudimentares em suas pregações para se conectarem com os indígenas. Desde o princípio era comum o uso de gestos para facilitar o diálogo, uma voz eloquente, o andar em roda, o bater das mãos e dos pés, pausas e quebras de retórica para demonstrar espanto e, com isso, estabelecer uma comunicação mais efetiva com aquele povo que tanto apreciava de gestualidades.

O “teatro-catequese”

As características teatrais não se restringiram apenas às pregações. O teatro foi utilizado de forma sistemática na conversão dos indígenas com o objetivo de mostrar a crença eurocentrista como benigna e os credos locais como malignos. De um lado estava o bem, deus, os santos católicos e o céu; e do outro o mal, o diabo e o inferno.  O principal representante desse teatro foi o padre jesuíta José de Anchieta, espanhol, mas que veio para o Brasil em 1553 com apenas catorze anos de idade.

O teatro de Anchieta surge inspirado pelo teatro medieval e apresentava características das obras de Gil Vicente. Na era medieval o teatro trazia a cena e difundia de forma eficiente entre os cristãos a figura do Mal, isto ocorria através de representações pavorosas e risíveis. Segundo o ator, dramaturgo e doutorando em Letras Wellington Nogueira, o Mal “recebeu caracterizações e denominações, de acordo com o imaginário popular do período medieval, que o marcaram para sempre: Satã, Belial, Satanás, Lúcifer etc; tornou-se ridículo diante dos anjos e outros seres divinos; cômico quando se enredado por causa de sua tolice ou quando se colocava em situações de fracasso, derrota; é ainda causador do riso quando insultado, humilhado e enganado.”

José de Anchieta se apropriou dos atributos do teatro da era medieval, mas fez mudanças e relações com as crenças populares locais e incorporou nas apresentações expressões que os índios estimavam como a música, a dança e o canto. Dessa maneira os ensinamentos dos mandamentos cristãos eram mais agradáveis se comparadas às pregações, que tinham um caráter mais seco e rígido.

Nos autos anchietanos fica evidente a caracterização do diabo medieval e o seu vínculo a maus costumes como bebedeiras, matanças, desonestidade, adultério, entre outros; toda a perversidade se relacionava com hábitos que os brancos queriam reprimir entre os nativos.

No Auto Representado na Festa de São Lourenço ,uma das mais reconhecidas obras de Anchieta, somos apresentados ao demônio Guaixará, que já no início do segundo ato da peça vai contra a ordem cristã ao louvar hábitos dos índios e reclamar da chegada dos padres:

GUAIXARÁ
Boa medida é beber cauim até vomitar.
(…)
Quem bom costume é bailar!
Adornar-se, andar pintado, tingir pernas, empenado
fumar e curandeirar, andar de negro pintado.
Andar matando de fúria, amancebar-se, comer
um ao outro, e ainda ser espião, prender Tapuia, desonesto a honra perder.
Para isso com os índios convivi.
Vêm os tais padres agora com regras fora de hora prá que duvidem de mim.
Lei de Deus que não vigora.

Apenas nesse pequeno trecho já se identifica uma série de condutas locais condenáveis pela igreja católica e associadas ao diabo. Por exemplo, o caium, nome que vem do tupi kaüí, é referenciado várias vezes na peça. Esta é uma bebida alcoólica feita da fermentação da mandioca que até hoje é servida em festas rituais indígenas.

A mesma citação apresenta outros hábitos considerados pecaminosos pelos europeus, mas que nessas terras tinham um significado moral e social completamente diferente. A antropofagia, por exemplo, foi relatada em cartas do período colonial,  apresentada sem o necessário entendimento da cultura indígena.  O    objetivo dessa prática não era a alimentação, mas algo ritualístico vinculado a possibilidade da aquisição dos atributos positivos do inimigo, além do mais a antropofagia não estava presente em todos os povos indígenas.

Estes exemplos ajudam a ilustrar como o não entendimento de uma cultura aliada a outros interesses econômicos, impõe através do “teatro-catequese” uma nova forma viver aos nativos, forma esta que despreza, ridiculariza e taxa como malignas as suas tradições.

Na Festa de São Lourenço o nome do diabo, Guaixará, e de seus ajudantes, Aimberê e Saravaia, são de origem indígena, uma adaptação de nomes portugueses à realidade brasileira. As nomenclaturas destes personagens são as mesmas de antigos chefes tamoios mortos em guerra, um povo aliado aos franceses e inimigo dos portugueses e dos tupinambás e temiminós. Além disso, para auxiliar no entendimento sobre o que é mal, as figuras diabólicas foram associadas a animais da fauna brasileira que causavam medo nos índios como, boicininga, jaguar, jibóia, socó, entre outros.

SÃO LOURENÇO
Quem és tu?
GUAIXARÁ
Sou Guaixará embriagado, sou boicininga, jaguar,antropófago, agressor, andirá-guaçu alado, sou demônio matador.
SÃO LOURENÇO
E este aqui?
AIMBIRÊ
Sou jibóia, sou socó, o grande Aimbirê tamoio.
Sucuri, gavião malhado,ou tamanduá desgrenhado, sou luminosos demônio.

Esta peça de José de Anchieta, assim como a maior parte dos autos representados nesta época, tinha um caráter maniqueísta. De um lado estava o diabo vinculado ao comportamento indígena e do outro nós temos como vencedores da narrativa deus, São Lourenço, São Sebastião e o anjo da guarda, todos, segundo a mitologia cristã, representantes do bem, da verdade e dos bons costumes europeus.

A ridicularização da cultura local promoveu o discurso do índio trajado de diabo

No auto da Festa do São Lourenço é possível rir do trio cômico de diabos formado por Guaixará, Aimberê e Saravaia e, além de risíveis, eles são uns derrotados perante as representações do deus cristão. Porém, ao achar graça dessa representação teatral, de maneira sutil também se coloca a visão eurocentrista como superior à dos povos originários da América.

É comum falar de forma positiva sobre o papel de formação educacional que o teatro deve ter na sociedade. Entretanto, chega a ser irônico observar como as representações culturais também carregam as características do seu tempo e, ao analisar e refletir sobre as primeiras manifestações teatrais do Brasil colonial, fica evidente como elementos do teatro prestaram serviço à imposição de uma cultura sobre outra, na substituição dos mitos indígenas pelo mito cristão.

É claro que a cultura europeia ao chegar aqui também adquiriu características locais assim desenvolvendo um mito híbrido, mas ao olharmos para o século XXI é irrefutável dizer qual cultura se impôs.

O índio, ao ser trajado de diabo no teatro, teve os seus costumes e tradições queimados, foi ridicularizado e derrotado.

Ariel Pascke
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