Metamorfose Ambulante

Como já dizia Raul

Metamorfose Ambulante

Um ano antes do meu nascimento, em 1973, o bruxo-mestre–crente-tudo-em-um-e-nada Raul Seixas lançou o álbum Krig-ha, Bandolo!, e numa das faixas ele cantava:

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Pobre Raul! Tão celebrado por uma tribo de tiozinhos nostálgicos, se acreditava mesmo nesses versos, seria hoje, por esses mesmos tiozinhos, execrado. Raul é o cara que celebrou os que não têm “convicções”, aqueles que são “fracos na crença, os tais que ficam em cima do muro. Sendo sincero, não é mesmo legal nunca ter convicções, mas é pior ter convicções como armadura quando as sabemos erradas.

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Mas é música, e música é poesia e poesia, dizia outro mestre, é produto de um fingidor. Talvez o velho baiano estivesse falando na voz de um personagem que ele desacreditava. Talvez não. Talvez o velho estivesse apenas nos dizendo que a gente tem que ser honesto com a gente mesmo. Que a gente precisa fazer aquele exercício de se colocar na posição do nosso adversário.

Até a Bíblia critica a mentalidade do velho maluco beleza: “porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte(…)é alguém que tem mente dividida e é instável em tudo o que faz”. Tiago 1:6,8.

Você tem noção de como isso é forte? E não é só em questões de fé, não senhor! É em tudo. Se você tem convicções políticas, uma força social gigantesca vai te pressionar para ter TODAS as convicções. É tudo ou nada, dizem não dizendo.

Deve ser nossa natureza primata ou nossa natureza de caçadores-coletores da pré-história. É que a gente sente, instintivamente, que tem que pertencer a um grupo. E uma vez no grupo, a gente levanta todas as bandeiras do grupo, a ponto de acreditar que acredita em tudo o que diz acreditar.
Porque as ideias “corretas”, as posições corretas, é que fazem de você um Sapiens e não um Neandertal. Um chimpanzé de cá do rio e não de lá.

Por sorte, ou não, também somos criaturas profundamente curiosas. E a curiosidade “profunda” não é coisa que combine com convicções fortes. É nosso paradoxo enquanto espécie. Não fosse assim, uma coisa como a ciência moderna não seria possível. E a filosofia nem teria dado seu passo para dentro desse turbilhão de mais de 2500 anos de pessoas negando o que um outro disse e sendo desacreditadas por outros que não concordam com o que elas mesmas disseram. É como disse Thales, o de Mileto, dito o primeiro dessa estirpe: “A ignorância é incômoda”.

Mas a ignorância é a realidade de quem finalmente desperta, de quem finalmente se olha no espelho da honestidade, não como Pedro, negando a si mesmo diante do espelho, outra do baiano.

E a consciência da ignorância nos leva a descartar convicções, acatar outras, experimentar, testar, voltar ao princípio, sentar no pó cansado, exausto, perplexo diante da vastidão do que não sabemos.

Dois princípios brigam em nós, um de preservação que nos leva a sempre considerar nosso conhecimento como coisa fixa e certa, melhor não arriscar; e outro, tão forte quanto, que nos leva a caminhar para fora da África, vagar por Ásia, Europa, navegar para a Oceania, atravessar pontes geladas, povoar a América. A se lançar numa louca viagem marítima, guiados pelas estrelas, mesmo que nossos mapas apenas nos digam que lá na frente há monstros terríveis ou que o mar termina bruscamente numa imensa cachoeira que deságua para dentro do nada.

Mas isso também é ter convicção. Convicção da nossa capacidade de ir além.

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Um dia um de nós estará com os pés no solo de um outro planeta. Ele/ Ela vai olhar um céu diferente, talvez tentando localizar a pátria ancestral, e talvez sua única certeza seja de que valeu a pena testar as próprias convicções. Talvez não.

Quem sabe? Um pouco a gente sabe, um tanto a gente adivinha e o resto a gente arrisca.

Isaías Oliveira

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