Anticapitalismo

Seria certo ou errado atribuir as origens de um problema social como a pobreza ao capitalismo? Porque gosto de superar dicotomias, minha resposta seria: os dois – certo e errado. Ou então: depende.

Jordan Peterson explica, partindo de um viés psicanalítico, que todo ser humano ataca um problema a partir de um determinado nível de análise. Em outras palavras, antes de solucionar um problema, toda pessoa determina como será a solução: se específica e pontual ou sistêmica e generalizada. Dependendo do problema em questão, é melhor que seja solucionado de forma mais pontual. Em outras ocasiões, necessita-se uma visão mais sistêmica.

Soluções pontuais para problemas sistêmicos são ineficazes. Isso porque não atacam a raiz do problema. Partamos para o exemplo da pobreza. Para resolver a pobreza, ajustes pontuais como programas redistributivos do governo, caridade e trabalho voluntário conseguem aliviar a pobreza localmente, em determinada cidade, país ou momento histórico, mas não o problema da pobreza em si, que continua a existir em nível mundial e perpétuo. Dessa forma, pode chegar a ser ineficiente que tentemos resolver o problema da pobreza a partir de ajustes pontuais e direcionados. Requer uma quantidade imensa de ajustes desse tipo, sendo assim mais fácil derrubar o problema da pobreza “em uma só tacada”, derrubando os sistemas que a geraram. No raciocínio anti-capitalista, a pobreza é só uma dentre uma miríade de problemáticas geradas pelo capitalismo – de tal forma que uma derrubada no sistema capitalista significaria uma derrubada no problema da pobreza, em si considerada, e diversos outros problemas, de modo perpétuo, sem a necessidade de outros e numerosos ajustes pontuais.

No entanto, o oposto também é verdadeiro. Existem problemas pontuais que não requerem visões sistêmicas. Em outros casos, os problemas podem até ser sistêmicos, mas são tão complexos que ainda estão obscurecidos e precisam ser quebrados em suas manifestações pontuais para que sejam esclarecidos, e assim, solucionados. Dessa forma, a solução é lenta, trabalhosa e gradual. Problemas matemáticos complexos funcionam assim. Não se resolve um problema matemático complexo “em uma só tacada”, mas em pequenos passos, micro-soluções, encadeadas em uma lógica linear onde, paradoxalmente, só se descobre o próximo passo se o passo anterior foi solucionado.

Isso porque se um problema é abstraído de forma inadequada, algo extremamente problemático pode ser identificado: o problema possuía uma multiplicidade de outras variáveis relevantes. A variável derrubada “em uma só tacada” era uma entre diversas variáveis.

Nesse caso, uma revolução anti-capitalista funcionaria como um transplante artificial e inadequado. Os revolucionários removem uma variável (a base econômica capitalista) e, ao remover essa variável, ficam surpresos quando percebem que as problemáticas não foram de todo resolvidas. Isso porque os processos sociais que desencadearam os problemas sociais são variados. A base econômica era um deles, mas também a base psicológica – a imaturidade, a ganância, a malevolência, e todas as características humanas que antecediam o capitalismo – e outras bases de consequência social. Substituíram a base econômica em uma sociedade que já consistia de outras características humanas. É um transplante de um órgão morto para dentro um ser ainda vivo.

A experiência mostra que essas tentativas sempre resultam em uma tirania ainda pior que a anterior. Isso não ocorreu porque não foram “feitas do jeito certo” ou porque “as forças capitalistas impediram que fossem feitas do jeito certo”, mas porque o nível de análise da solução do problema já estava errado. Faltava complexidade. Foi o nível errado de análise – acharam que poderiam resolver o problema humano “em uma só tacada”, quando a complexidade do problema humano era maior do que a variável identificada.

Dessa forma, os anti-capitalistas não erram à medida em que procuram uma solução para os problemas sociais de “uma só tacada”. Isso é razoável. Diria, até, inteligente; porque a estupidez, assim como a loucura, mora em tentar resolver um problema a partir de soluções antiquadas e repetitivas. O erro não está precisamente em procurar uma solução “de uma só tacada”, mas em acreditar já tê-la encontrado, quando sabemos que o processo social é complexo.

Agora, gostaria de relacionar o anti-capitalismo ao Marxismo, porque acredito que muito do sentimento anti-capitalista foi influenciado por Marx.

Muito do que foi dito acerca do capitalismo por Marx e seus seguidores não está errado, precisamente. O capitalismo cria uma superestrutura de valores e crenças que, por sua vez, influencia o comportamento das pessoas. Muito do que se acredita, dentro do capitalismo, é condicionado por uma ideologia gerada e reproduzida para a manutenção do próprio sistema; processo esse objetivo e independente da vontade dos burgueses. A cultura consumista, por exemplo, é gerada a partir das ideologias que impregnam o capitalismo. Só que o consumismo e as ideologias não são só resultado do capitalismo. São resultado também de outras variáveis sociais, espirituais, psicológicas cuja totalidade ainda não entendemos. A parte arrogante é afirmar que todos os processos sociais estão inclusos na base econômica, e que, logicamente, a partir de uma mudança radical na base econômica o resto dos processos sociais mudarão de forma harmoniosa em direção a uma utopia onde todas as problemáticas são resolvidas.

Já disse que não tenho a pretensão em minha vida acadêmica de derrubar, por vias intelectuais, os escritos Marxistas, mesmo porque esses escritos partem de pressupostos gerados dentro da própria filosofia Marxista. Seria como querer dialogar com alguém que fala um idioma diferente. Minha abordagem ao Marxismo e ao anti-capitalismo por ele influenciado não é crítica, mas de superação. Isso significa que sequer sou pós-estruturalista (porque o que os pós-estruturalistas fizeram com o Marxismo foi criticar, não superar), mas fui jogado para fora da esquerda acadêmica brasileira de uma vez por todas, em um lugar acadêmico estranho e diferenciado. Meu pensamento parte de outro nível de análise: de que os processos sociais são complexos, que precisam ser abstraídos aos poucos e que possuem variáveis que antecedem qualquer sistema econômico. A experiência social como individual, universal e espiritual, todos alinhados e ocorrendo ao mesmo tempo; é onde mora meu pensamento.

Lucas Franceschi
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