Alquimia, Transmutação e União na Lei do Ritmo

A Lei do Ritmo, uma das Sete Leis Herméticas

Não existe solução mais simples para uma vida tranquila que sua aceitação tal como ela é. Por essa ideia Jesus Cristo ensinou, na oração do “Pai Nosso”, que a vontade de deus deve prevalecer sobre a nossa. Pode-se dizer, talvez, que equiparou a vontade de deus à realidade presente, ao que é.

Antes dele, porém, outro grande sábio trouxe uma ideia um pouco mais pitoresca, ativa, intrigante. Focando na consciência do ser, Hermes Trismegisto, o Três Vezes Grande, ensinou que o universo obedece a sete leis universais, todas elas relacionadas entre si: mentalismo, correspondência, vibração, polaridade, ritmo, gênero e causalidade. 

Reconhecida a natureza legal de tais princípios, à primeira face, quando nos deparamos com o enunciado da Lei do Ritmo, é comum que nos sintamos aprisionados a um tormentoso ciclo infinito: “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; todas as coisas sobem e descem; o movimento do pêndulo manifesta-se em tudo; a medida de sua oscilação para a direita é a medida da oscilação para a esquerda; o ritmo ajusta e equilibra” (O Caibalion, principal obra que aborda as sete leis herméticas, atribuída a William Walker Atkinson).

A lei é imperativa e, sendo universal, tem oponibilidade erga omnes. Não há sujeito que se esquive a sua aplicação. 

Analisando cada frase do excerto, parece não haver saída. Estamos imersos na sina de um suposto equilíbrio que foge à vontade do reles e infeliz sujeito. A vida obedece a um ritmo que determina ciclos intermináveis. O pêndulo da existência oscila de um polo ao outro, incansavelmente. Em determinado momento, está bom. Aproveitemos. Logo ficará ruim. Suportemos. Estamos fadados à contínua e rítmica oscilação.

Neutralização e transmutação

Após o enunciado transcrito, Atkinson nos surpreende com o inusitado axioma: “O Ritmo pode ser neutralizado pela aplicação da Arte da Polarização”. Vê-se uma esperança vivaz. Numa leitura despretensiosa, o processo parece simples: “há um plano Superior de Consciência, do mesmo modo que um Plano Inferior intermediário, e o Mestre, ao elevar-se gradualmente ao plano Superior, obriga a oscilação do pêndulo mental a se manifestar no Plano Inferior; durante esse tempo, ele, que alcançou o Plano Superior fica livre da consciência da oscilação de retorno do pêndulo”. Ou seja, basta elevar-se até o chamado Plano Superior e deixar correr, sob seus pés, no Plano Inferior, o pêndulo mental com suas oscilações.

Vivemos, entretanto, no Plano Inferior intermediário, desconhecendo (ao menos a maioria dos sujeitos) qualquer sinal de existência de um Plano Superior de Consciência. Não bastasse a completa ignorância da maioria, alguns poucos que saíram dessa escuridão encontram-se ainda submersos – e por que não dizer afogados – em complexas teorias ilusórias. Ressalte-se que o julgamento contido na derradeira afirmativa tem por referência a própria teoria hermética, já que é nela que se encontra a lei do ritmo. 

Abordando os princípios herméticos, Atkinson nos distancia ainda mais do objeto quando o denomina “Arte”. Poderia ter escolhido outro termo, como método ou técnica, mas decidiu por ARTE, algo extremamente complexo que, por seu próprio conceito, exige especial elevação do agente. Em meros dois parágrafos, ele parece querer explicar como se faz essa alquimia, que exige grande domínio de todas as demais leis, no intuito de se lançar a uma habilidosa dança entre as forças da lei do ritmo. Quem estaria apto a tal odisseia? 

Transmutação e união

Ainda citando a literalidade do texto em estudo, “o Hermetista avançado polariza-se no Polo Positivo do seu Ser: o polo do ‘Eu sou’, e não do polo da personalidade, e, pela ‘recusa’ e ‘negação’ da ação de Ritmo, eleva-se sobre seu próprio plano de consciência”.

Nesse trecho, a esperança volta a respirar. A separatividade como heresia é gentilmente ventilada. No sujeito, há o humano e há o deus. Ao menos, é possível dizer que há UM deus, um algo superior ao primeiro, além do eu. A resposta ao problema se mostra, como toda verdade, ao alcance de qualquer mão que ouse estender o braço para dentro de si e tocá-la. O joio e o trigo estão no mesmo peito, no mesmo tempo, no mesmo templo, na mesma alma. Talvez o céu onde se encontra o “Pai Nosso” esteja bem mais próximo de nós do que este que enxergamos quando olhamos para cima. 

O Caibalion não afasta a resposta do desatento leitor somente por exigir que seja este um artista, demandando ainda que seja um hermetista avançado, um mestre nessa arte. 

Caberia questionar qual é a instituição que reconhece esse título? Haveria algum teste objetivo que demonstraria o nível do dito hermetista? A diferenciação, ao que parece, se encontra em algum ponto entre a alma do leitor e as letras da obra.  

Outra ideia que quase perpassa entre os dedos é que o Mestre eleva-se gradualmente. Não há um interruptor que o dispõe num ou noutro plano. Trata-se de um processo. Essa constatação aproxima de novo o discípulo, visto que todo processo tem um início, um meio e, talvez, um fim. Um processo claramente escalonado no campo vibratório do entendimento, invisível aos olhos. 

Se, num primeiro contato com o axioma, o iniciado entende que a neutralização se dá com pensamentos positivos, esse é seu primeiro passo. Ao compreender que o mentalismo está intrinsecamente conectado à vibração, tem-se mais um degrau. Entendendo a polaridade, identifica-se a livre escolha. Então, mais um plano se desvela. A causalidade traz a razão e quiçá o juízo. 

Mais um passo é dado quando a lei do gênero e a lei da correspondência nos devolvem a obediência, expurgando a ousada separatividade. Então, percebe-se que todo o caminho nos leva a um campo não alcançado. O que parecia ser o fim é apenas o começo. É hora, talvez, de um reinício, uma releitura em busca de algo mais fino que teria escapado à visita inicial. O mentalismo, nessa segunda visita, mostra-se maior, mais amplo, mais alto. A vibração ganha cores e os polos, alguma estabilidade. O resto é processo, um porvir no tempo presente, passado e futuro. Logo se percebe que esse e também os próximos passeios nessa arte compõem tão somente uma singela preparação.

Temos, então, um grande incentivo nas palavras de Martin Luther King: “Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo”.

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Gabriella Mochizuki
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