Você sabe o que é liberdade? Quid est libertas?

Você sabe o que é liberdade? Quid est libertas?

Veja se você já não passou por uma experiência parecida… Você está num grupo de pessoas que seguem uma ideia ou pensamento qualquer. Provavelmente concorda em muitos pontos com eles, mas em algumas poucas coisas discorda. Você é o tipo de pessoa que acha bem difícil que dois seres humanos concordem plenamente em tudo. Também acha que nenhum ser humano está correto em cem por cento do que pensa e então encara como artificial quando vê esse tipo de coisa acontecer.

Pode ter ocorrido de você se calar por prudências, mas, de vez em quando, você “testa o campo”, fazendo algumas poucas afirmações que acha corretas, mas que contrariam o pensamento do resto do grupo. 

Os 3 caminhos para o silencio

 De todas as coisas que podem acontecer, três me parecem mais comuns:

– A primeira é que alguém vai te corrigir fazendo de conta que não está. Ela faz uma afirmação que parece concordar, mas então te puxa para a “verdade autorizada” do grupo, nunca permitindo um debate verdadeiro. 

– A segunda é que você vai ser diretamente corrigido e algumas vezes com certa violência verbal. Certos pecados são imperdoáveis. Geralmente é a pessoa mais envolvida com aquela ideia que tem a iniciativa da ameaça. Perceba as expressões faciais, a ameaça, o transtorno, o tom de voz. 

– A terceira diz respeito ao olhar. As pessoas podem olhar para você com aquela expressão de surpresa (olhos bem abertos e olhar direto), olhar umas para as outras ou olhar para o chão, mas sem dizer nada e imediatamente mudar de assunto.

Esses são sérios sinais de alerta de que estamos num ambiente de totalitarismo do pensamento. Veja, todo lugar exige certa “etiqueta de opinião”, e não é legal emitir opiniões sobre tudo o tempo inteiro. Mas devemos saber que “liberdade” começa e termina com o pensamento.

Ser livre é ter o direito sagrado de divergir

Ser livre é ter o direito sagrado de divergir. E claro que existe o divergir saudável e o tóxico. A divergência saudável  deve estar atrelada a um bom desenvolvimento ético e moral, assim como se ampara em conhecimento (que deve ser do modo mais livre possível). Por exemplo, qualquer pessoa acha moralmente inaceitável matar outra somente por discordar da sua opinião, mas um fanático pode pensar que é razoável matar alguém que discorda. Veja que ele não admite discordância, mas acha a sua discordância válida. Eu sei, o exemplo é circular, mas é para pensar mesmo. 

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Vamos resumir então dizendo que, poder discordar amparado no conhecimento e em uma ética e moral bem desenvolvidas (você decida aí o que é isso) é um direito sagrado. É natural que nossa discordância acione defesas do outro lado, mas é hora de alerta quando essas defesas não são dirigidas ao que pensamos, mas à nossa autonomia em pensar aquilo.

Captou a diferença? Basicamente, um grupo de pensamento totalitário não se preocupa se você tem um pensamento divergente e sim com o fato de você simplesmente ter um pensamento. É necessário “uniformizar”. Essas afirmações são tão “verdadeiras” que só podem ser consideradas verdades se não pensarem nelas com seriedade. Você só pode pensar “ao redor” delas, mas sem tocá-las realmente. 

As ferramentas para reconhecer o autoritarismo

Minha intenção não é escrever um manual de como reconhecer o totalitarismo. O que posso é apontar algumas coisas que tenho visto nas minhas experiências com diversos grupos, e quem sabe, te oferecer algumas ferramentas que possam te ajudar a identificar esse tirano invisível que nos impõe uma falsa ordem. Só entenda o seguinte, vivemos numa sociedade com muitos pressupostos, é realmente impossível sair do mundo conceitual. Mudar isso traria um caos danado. As coisas são assim porque funcionam minimamente. 

De todo modo preste atenção nos tópicos a seguir. Eles não possuem ordem e podem não estar todos presentes num determinado grupo, mas são bons indícios. Se acontecem no seu grupo, acenda sua luzinha interna de alerta.

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Decisões irrelevantes que dão ilusão de escolha.

O grupo faz reuniões e permite que uma assembleia decida sobre temas previamente escolhidos. Mas isso é sempre limitado, por exemplo, nossa passeata vai ser pela rua x ou y? E é melhor às dez ou ao meio-dia?

Brocardos ideológicos.

Estamos acostumados com os brocardos jurídicos. Brocardo é uma máxima, uma frase sintética que precisa de uma definição mais ampla. O brocardo ideológico é uma frase de efeito sem possibilidade de discussão. Funciona como os dogmas das religiões e serve de tampão retórico para evitar o debate. 

Interpretações fechadas de fatos históricos.

Essa é clássica, é dizer que “tal coisa” foi assim porque “isso ou aquilo”; sempre aplicando uma espécie de plano, ou um reducionismo intencionalmente matemático. Mas sempre se ignora uma série de outros fatores ou explicações possíveis. Veja que esse tipo de leitura obedece aos pressupostos ideológicos. É a aplicação da ideia sobre a história. Um historiador sincero tira da história as chaves interpretativas de determinado evento, ele não leva as suas chaves prontas. Sei que você pode pensar nos exemplos.

Uniformidade discursiva.

Há muita variedade, mas sempre sobre o mesmo tema. É o ciclo da ideia. É dizer de modo diferente sem dizer nada realmente novo. Oriente-se.

Controle do Pensamento.

Isso já foi discutido acima, mas está aqui novamente como um alerta. Se pensar for um pecado… Fuja!

Simplificação de questões complexas.

Aqui cabe o mesmo critério sobre a história, mas ideários não versam apenas sobre isso. Um exemplo seria reduzir os problemas da África APENAS ao domínio europeu. Veja que isso é verdade em muitos pontos, mas não em todos. Será que hoje eles não teriam problema nenhum sem esse domínio? E será que seriam problemas diferentes dos que eles têm hoje? Então o próprio fato de pensar já te ajuda a “imunizar-se” disso.

LOGOMAQUIA.

Esse termo significa discussão em torno de significados de palavras. Mas o sentido que quero dar, e que me parece mais adequado ao significado etimológico, é a batalha do discurso. É mais ou menos como ser um sofista moderno. O importante é “ganhar no grito”, pouco importando se o que é dito corresponde ou não à verdade. Veja que é possível construir um discurso falso sobre fatos verdadeiros. 

Dualismo.

É outra forma de reducionismo conceitual. É dizer que todo conflito se reduz a nós versus eles. Sendo “eles” o mal, as trevas e “nós” o bem, a luz. Sempre que você houve alguém falar sobre “maniqueísmo moderno”, é isso que se tem em mente. É claro que o mundo é feito de polarizações, mas elas não são só duas. Um antídoto é você conseguir enxergar o lado bom dos seus adversários. 

Prestígio ligado às “opiniões corretas”.

Esse é o principal “policial do pensamento”, é a forma como o grupo exerce coerção sobre seus membros. Se você está num grupo, você precisa ter as opiniões do grupo. Mas somos seres humanos, estamos sempre esbarrando na dúvida. Nossa resposta é forçar externamente essas “convicções”, evitando o questionamento interno. É o velho “parecer crer para crer”.

Quanto mais repito, mais reforço. E quanto mais pareço, mais recebo aprovação do grupo. E esse é o caminho para subir na hierarquia do grupo. Todos têm dúvidas, e todos querem a pureza do ideólogo perfeito. É por isso que é necessário forçar a própria crença, e mostrar aprovação dessa crença nos outros. Destaca-se quem mais parece. É uma coisa bem humana. Como escapar disso? Aceitando as próprias dúvidas, encarando-as de frente e rejeitando a força grupal que nos impede de tê-las.

É um começo. Como disse, não tenho como ser exaustivo, mas espero que isso ajude você a refletir. Logo melhoro esse texto e incluo exemplos mais específicos, já que, como você deve ter percebido, evitei polêmicas. Não quero discutir as coisas, mas os fundamentos conceituais. Não confunda isso com o jargão “vamos questionar tudo”, isso é papo para outro texto. 

Isaías Oliveira
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