SUZY, UM CASO DOLOROSO PARA TODAS AS PARTES.

Suzy um caso doloroso para todas as partes

COMO A HISTORIA COMEÇOU?

O programa Fantástico da Rede Globo vinculou uma reportagem sobre como é a vida  de mulheres trans nos presídios brasileiros, o programa apresentado pelo Dr Drauzio Valera, conhecido por atuar em presídios desde o Carandiru.

Na reportagem conhecemos muitas personagens trans que vivem em presídios pelo Brasil, aprendemos sobre as dificuldades e lutas dessas mulheres nesses espaços, aprendemos sobre o esforço feito por elas para se tornarem pessoas melhores quando saírem da prisão, sobre as profissões que estão aprendendo, sobre os sonhos que elas tem.

A personagem que ganhou maior destaque foi a detenta Suzy, que durante entrevista respondeu que estava a 8 anos sem receber visitas, e em um ato de empatia que comoveu muitos, o Dr Drauzio a abraçou, isso começou um movimento.

O MOVIMENTO SUZY

A repercussão daquele abraço deu início a uma campanha de humanização das mulheres trans que estão presas.
Durante o período de pouco mais de uma semana a internet falava sobre o abandono de mulheres trans no cárcere e sobre o seu esquecimento, falava-se sobre os crimes cometidos por essas mulheres, normalmente pequenos roubos e prostituição.

O rosto que simbolizava essa luta era o rosto de Suzy, a mulher que estava a 8 anos sem receber visitas, esquecida para cumprir sua pena.

Motivamos pelo ato de empatia do Dr Drauzio um movimento espontâneo de apoio da mulheres trans vivendo em cárcere começou, campanhas para que pessoas enviassem cartas as mulheres trans nos presídios brasileiros e para humaniza-las.

Mas pouco tempo depois dessa onda de solidariedade as informações sobre o porque Suzy estava presa vieram a tona.

O CASO SUZY

O site Antagonista divulgou uma reportagem que identificava Suzy como Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos, acusado de violentar e assassinar um garoto de 9 anos de idade.
No primeiro momento diversos canais reportavam que a publicação do site Antagonista era uma Fake News, mas no dia seguinte o site ISTOÉ confirmou a noticia.

Suzy deixa de ser o rosto de um movimento progressista que fala sobre inclusão para se tornar o rosto de um crime em todas as manchetes.

Tamanha reviravolta deixou todos com as emoções a flor da pele, o crime cometido por Suzy está entre os que não de pode ter perdão, será uma marca que ela nunca poderá deixar de carregar, mas perdão e justiça são coisas diferentes.

Suzy jamais será perdoada pela opinião pública, pelo família da vitima ou até mesmo por mim, perdão trata de algo profundo, pessoal e difícil de ser dado em muitas situações, e ninguém poderá falar que Suzy merece perdão.

Mas existe a justiça, o poder judiciário , um dos pilares do nosso sistema democrático, onde casos como o da Suzy vão para julgamento, onde inocência ou culpa pelo crime precisam ser provados, e onde a punição adequada segundo as normas e leis que criamos enquanto sociedade é definida.

Suzy está condena e presa desde de 2010 por seu crime e assim ela deverá ficar até cumprir apena determinada no seu julgamento.
Criamos leis e ritos legais para que não cairmos na barbárie do olho por olho e dente por dente, se acreditamos que leis mais severas precisam existir precisamos conversar enquanto sociedade e determinar quais leis e como elas serão aplicadas, e temos os meios para fazermos isso dentro da nossa democracia.

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A CONTRA CAMPANHA


No primeiro momento Suzy se torna espontaneamente o rosto da campanha sobre a vida de mulheres trans nos presídios, toda a popularidade, todas as ações criadas se tornaram um movimento forte.

Com o surgimento do crime de Suzy, esse movimento se tornou uma contra campanha a mulheres trans em cárcere e ela continuava a ser o rosto desse movimento, as iniciativas de aproximação de humanização desapareceram as time lines, e repetidamente a noticia de que a travesti, o homem ou a mulher trans cometeu esse crime.

A associação de mulheres trans a crimes sexuais é um estigma, a 50 anos essa acusação era feita para qualquer homem gay, movimentos sociais , ativista e defensores do movimento trans trabalham a anos para superar esse estigma que não tem embasamento na realidade.

No primeiro momento quando pensávamos que Suzy estava presa por furto, roubo ou até prostituição o rosto dela era o rosto sobre o movimento de abandono de pessoas trans nos presídios, no instante em que o crime de Suzy veio a tona ela deixou de ser esse símbolo, porque ser trans nada tem haver com isso.


O ERRO DE PRODUÇÃO E O ERRO DE RP

Quando a produção da reportagem não checou cada uma das entrevistadas antes de produzir e divulgar a reportagem cometeu um erro.
Para se trabalhar dois temas tão sensíveis e complexos para o nosso povo tudo o cuidado é pouco, estamos falando de população carcerária que não é bem quista pela grande parte de população, e estamos falando de pessoas trans que também não são bem quistas pela nossa sociedade conservadora, e sim nós brasileiros temos tendência ao conservadorismo moral.

A checagem de antecedentes das entrevistas na reportagem que apareceriam no programa jornalístico de maior audiência do Brasil era o minimamente esperado.
Esse erro não será creditado na conta da Globo ou da equipe de produção, mas na conta de cada mulher trans e dos grupos de ativismo que precisaram trabalhar muito para superar esse colossal erro de relações públicas que foi colocado sobre suas costas.

E ENTÃO…

Esse erro de produção custou muito caro para todas as mulheres trans do país que perderam a oportunidade de conseguir falar sobre os desafios de ser trans no Brasil.
Custou caro para a família de Fábio dos Santos Lemos vitima do crime perpetrado por Suzy que teve que encarar uma comoção nacional em favor a pessoa que lhe tirou tanto.
Custou caro para todas as mulheres trans que vivem em cárcere por crimes menores e custou caro a própria detenta Suzy que foi exposta de todas as formas nas redes sociais.

Suzy escreveu uma carta pedindo perdão por seu crime a família da vitima e cabe apenas a mãe de Fabio essa decisão.
O Dr Drauzio Velera também foi a publico e pediu desculpas pelo erro de produção e RP em um vídeo no Jornal Nacional.

O que nos resta fazer enquanto sociedade dialogar sobre a necessidade de leis mais severas ou não para crimes como esses, mas não apenas para Suzy mas para todos os outros crimes brutais perpetrados por pessoas que já estão em liberdade e sendo tratados como pessoas boas e respeitáveis.

Temos que continuar a falar sobre a vida das mulheres trans no cárcere e fora dele, porque a detenta Suzy não as representa, precisamos extrapolar esse erro de relações publicas e enxergar as pessoas que estão esquecidas apenas por serem trans.

E temos que nos solidarizar com a família de Fábio que precisou enfrentar todo esse trauma novamente.

Reginaldo Pacheco
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