Precisamos de uma nova política ?

Precisamos de uma nova política ?

Uma das “modinhas” do momento é dizer-se “apolítico”, ou que os conceitos ideológicos de esquerda e direita estão ultrapassados, que precisamos de uma “nova política” com “novos conceitos”. Isso é em parte reflexo do fim da Guerra Fria, que colocou por terra o bipolarismo de dois sólidos blocos ideológicos. E, de fato, tanto o sistema capitalista (frisando que capitalismo é um sistema econômico, não uma ideologia) quanto a ideologia socialista, da maneira extanque com que estavam sendo praticados, não irão funcionar. Mesmo porque Marx deixou claro que considera o Estado o “escritório da burguesia”, um instrumento para proteger a classe dominante e perpetuar a luta de classes e, sendo assim, enquanto existir Estado existirá a sociedade de classes, um regime estatal totalitário, algo incoerente com essa visão. Mas isso é assunto para outro texto (quem duvida do que estou dizendo, recomendo a leitura do Dezoito Brumário de Luís Bonaparte).

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                No filme “O Leopardo”, que trata da luta pela unificação da Itália, há uma frase célebre, que ajuda muito a entender como funciona a dinâmica da política: “É preciso que tudo mude para que tudo continue como está”. Ou seja, muito do que se chama de “mudanças” são quimeras, ilusões criadas para que se ache que algo está mudando, renovando as esperanças populares, quando na verdade a máquina sistêmica de dominação continua funcionando. A ilusão da mudança nos faz acreditar que o antigo foi ultrapassado; desviamos nosso olhar dele e olhamos para o futuro fascinados, esquecendo que as coisas boas e más do que passou ainda estão à espreita.

Sobre esquerdas e direitas!

                Vejamos os conceitos de esquerda e direita, por exemplo. Ao contrário do que se pensa, eles possuem vários tons de cinza, várias nuances internas. Existem “esquerdaS” e “direitaS”, no plural. O que une todas essas nuances é algo muito simples (não, não é o nível de influência do Estado na economia): é a visão que se tem sobre a natureza humana. Se você acredita que o ser humano é bom, mas o sistema é ruim, você é de esquerda. Se acredita que o sistema é bom, mas o ser humano é ruim, você é de direita. E, obviamente, isso tem muitas nuances e juízos morais do que se acha “bom” ou “ruim”, daí vindo as subdivisões ideológicas.

Em algum ponto a pessoa sempre se encaixa, mesmo os mais omissos, ou adeptos do “meio termo”. Afinal, a omissão também é um posicionamento político. Se você se omite, acha desnecessário agir, quer dizer que você concorda com o que está vigente no momento. Não há como, portanto, você ser “apolítico”, estar fora da arena. A opinião de todos influi nos processos políticos.

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É perigoso dizer coisas como “não sou esquerda/direita, sou para frente” ou “não tenho ideologia, apenas penso no meu país” porque isso invisibiliza o discurso que está por trás do plano de governo defendido, oculta as verdadeiras intenções daquela facção política. Gupos de extrema direita fazem muito isso: escondem-se atrás de bandeiras nacionalistas, por exemplo, passando uma falsa imagem de neutralidade, de “pureza de intenções”. Quando se tira o foco das ideologias, dizendo que “elas não existem mais”, tornamo-nos cegos para os discursos ocultos nos grupos que lutam por poder político.

Há como fazer política sem ideologias ?

“Mas não há como simplesmente desejar o bem do seu país, sem pensar em ideologias, em discursos?” Não, não há. Sempre se pensa em ideologias e discursos, mesmo quem não percebe. Façamos um exercício: um cidadão diz que tudo o que ele quer em um político é que ele não roube. Mas por que ele deseja isso? Por uma questão moral? Porque desejaria ver esse dinheiro investido em outra coisa? Por ser dinheiro de impostos tirados do seu bolso? Vamos supor que a resposta seja a segunda alternativa: o cidadão deseja que o dinheiro seja investido em algum projeto. Certo, mas que projeto? Que benefícios ele trará e para quem? Baseando-se nessas respostas, identifica-se a ideologia, o discurso da pessoa.

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O sociólogo Max Weber salienta, em estudos sobre a vocação política, que é uma ilusão pensarmos que existirá algum dia um político que pense somente no bem comum. Todos têm interesses próprios. E isso não é necessariamente ruim, se o povo souber alinhar os interesses dele com os seus!

Petra Schindler

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