Os brasileiros são um povo triste

Os brasileiros são um povo triste

Muitos irão achar esse título absurdo, e é exatamente essa a minha intenção. Mas sim, para mim os brasileiros são um povo triste.

                “Como assim? Que absurdo! Brasileiro ri de tudo, só pensa em futebol, balada e carnaval, não gosta de trabalhar, sempre tem idiotamente esperança que tudo vai melhorar, é facilmente iludido, vive mamando nas benesses do governo, é um povo mau caráter, preguiçoso e festeiro por natureza”.

                Para mim, tudo isso é apenas uma maneira diferente do usual que o brasileiro tem de demonstrar a enorme melancolia, desesperança e desumanização que permeia o nosso inconsciente coletivo.

O brasileiro não gosta de trabalhar

Dizer que “o brasileiro não gosta de trabalhar”, por exemplo, é uma das maiores falácias que a ideologia preconceituosa veicula. Diversas pesquisas, como esta divulgada na revista Super Interessante “Como é a jornada de trabalho no resto do mundo?“, mostram que nossa jornada de trabalho  oficial é maior do que a de muitos países europeus. Se formos contar então o trabalho informal, e os que trabalham em condições análogas à escravidão, as horas aumentariam muito. Há alguns estudos também que contabilizaram as horas de trabalho no carnaval na Bahia, e os baianos trabalham mais que o resto do país nesse período por conta dos negócios do turismo.

                Mas então, por que insistem em dizer que os brasileiros não trabalham, são preguiçosos, fogem do dever para se divertirem?

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O Mito da Preguiça Baiana

A tese de doutorado “O Mito da Preguiça Baiana”, da antropóloga Elisete Zanlorenzi, explora algumas dessas questões . O cerne de toda essa visão preconceituosa que se tem do brasileiro vem basicamente da ideia inconsciente de que nós não temos o direito de nos divertir, de descansar: temos que trabalhar incansavelmente para conseguirmos ser considerados dignos de alguma forma.

“Mas Petra, essa não era a visão que se tinha dos escravos? Que nunca faziam o suficiente, quando trabalhavam muito não fazia mais do que a obrigação, e qualquer tentativa de diversão, descanso ou rebeldia contra os maus tratos era “vagabundagem”? Precisamente, meus caros e minhas caras. É quase como se, ao dizer isso, incorporássemos um capitão do mato. Branco livre que lutava por seus direitos era herói, era mártir, escravos eram “negros safados”, “negros fujões”.

No trabalho da doutora antropóloga, é colocada como uma das razões para o preconceito da preguiça o fato de muitos retirantes irem para São Paulo e terem dificuldade para conseguir emprego, ficando, por isso, “ociosos”. E, claro, eram chamados de vagabundos, mesmo não sendo culpa deles. Porque só europeu tem direito de descansar, de fazer festa, de ficar desempregado.

Brasileiro, quando fica desempregado, é porque é vagabundo; quando faz festa, vai para o carnaval ou para a balada, é porque não gosta de trabalhar, só pensa nisso, é fútil; quando lutam por direitos sociais, querem ficar folgados recebendo benesses do governo.

Na Europa também tem/teve festas e putaria (Império Romano manda lembranças), nos EUA também há baladas e fanatismo por esportes… só que é no Brasil que isso é colocado como uma marca de que “somos todos vagabundos”.

Porque brasileiro é cidadão de quarta, quinta classe… e cidadão de quinta classe não é gente, portanto não tem direito a nada, só a trabalhar e calar a boca. Já ouvi uma senhora criticando mulheres que recebiam o Bolsa Família por comprarem maquiagem com o dinheiro, por exemplo.

Porque imagina, é um sacrilégio a pessoa querer comprar um batonzinho, um estojinho de três sombras, desenvolver um pouco de autoestima, um pouco de vaidade. Vaidade é coisa de gente, e brasileiro pobre não é gente. Tem que só comprar comida e acabou. Mas, como diriam os Titãs, “a gente não quer só comida”!

O fiscal da vida alheia

Sabe aquele indivíduo que adora fiscalizar a vida dos outros e falar mal, que chamamos de “mal-amado”? Pois é, somos todos mal-amados, carentes, desassistidos. Por isso a “esperança” do brasileiro é colocada de maneira pejorativa, como se ele fosse intelectualmente inferior quando acredita que as coisas vão melhorar; porque muitos acham ridículo ter esperança em uma conjuntura ruim, com uma história tão pesada, como a nossa. É ridículo quando começamos a ter sentimentos “de gente”, como esperança, cansaço, vontade de se divertir, revolta contra autoritarismo e maus tratos.

Não importa o que façamos, sempre seremos vagabundos aos olhos do feitor. E o feitor… geralmente é ex escravo.

Petra Schindler