O Pilar da Tolerância

O que torna possível uma sociedade plural como a nossa é a tolerância. Ela tem limites, é claro. Ninguém quer ser cúmplice por omissão de uma coisa que considera absurda. Alguém, em nome da tolerância, poderia ser coagido a aceitar o nazismo ou a pedofilia? É claro que não.

Mas tolerância em si não destrói os valores de ninguém. Tolerar não significa “normalizar” (com muitas aspas) ou deixar de discordar. É apenas o comportamento racional de entender e aceitar que as pessoas creem, são e agem de modo diferente do seu. Até porque, olhando pelo outro lado, você também é diferente delas.

Nunca se falou tanto em tolerância. E penso que nossa sociedade está sim mais tolerante do que foi no passado. Mas o quanto disso é fruto de reflexão e interesse genuínos? Será que se as circunstâncias mudarem, ainda manteremos essa atitude ou esse comportamento não passa de um verniz? Isso só é possível se a tolerância for um valor internalizado, um princípio de vida. A verdade é que ser tolerante possui um certo prestígio. Ninguém quer ser visto por seus amigos como alguém intolerante e retrógrado. Até porque essa pessoa corre o risco de ser exposta nas redes sociais, paredes onde são fuzilados os intolerantes e todo tipo de criminoso do pensamento moderno. 

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Dito assim até parece que se deve tolerar a intolerância. Não. O que quero dizer é que esse tipo de pressão pode aumentar a hipocrisia e a simulação. E pode ser que aquele comportamento tão reprimido por um grupo passe a ser um valor em outro. Não é incomum que esse tipo de reforço aconteça. Por isso a luta real deve ser para que essa abordagem pacífica se torne um valor e não uma moeda discursiva. A sabedoria de nossos avós já nos ensinava que ações valem mais que palavras. É por isso que é necessário ter alguma tolerância, mesmo com a pessoa que pareça intolerante, segundo nossos próprios valores. Não tolerância com suas ideias, mas com ela mesma. Na história da luta contra o racismo em todas as suas formas, sempre houve pessoas que se levantavam pelos oprimidos mesmo não sendo parte desse grupo. Além de serem tratadas como traidoras pelos seus iguais, ainda tinham que lidar com a desconfiança das pessoas que tentavam ajudar. Nesse caso, a tolerância precisou ser praticada por quem era vítima de intolerância.

Além disso essa intolerância pode ser fruto de eventos traumáticos. Alguém que foi vítima de uma pessoa com certas características pode criar algum tipo de trauma que a leve a desconfiar de todas as pessoas que lembrem o agressor. O fator pode ser uma guerra ou algum conflito, como o que existe no atual território da Pelestina ou ainda o descrito no filme Hotel Ruanda sobre os tutsis e hutus. Pode ser um aspecto da cultura popular, como associar certas características físicas com determinados comportamentos criminosos. Muitos preconceitos são frutos de ideias religiosas. Se não praticarmos alguma tolerância com essas pessoas, é impossível que consigamos dialogar com elas e influenciar de algum modo o seu pensamento. Apesar de todas as diferenças entre dois seres humanos, sempre é possível encontrar um ponto comum.

A real tolerância exige um mínimo de identificação, a consciência de que somos todos humanos. E como humanos nós erramos, trapaceamos, amamos e também sofremos. A universalidade do sofrimento, inclusive, é tema recorrente na história do pensamento universal e algo com que cada um de nós tem que lidar no decorrer da vida.

Sidarta Gautama, o Buda, construiu sua doutrina sobre a ideia do sofrimento, que ele tornou a essência de suas quatro nobres verdades. Jesus, diversas vezes nos evangelhos, experimentou o sofrimento em si e nos seus próximos. Suas bem-aventuranças refletem as mazelas do sofrimento humano, “bem-aventurados os que choram porque serão consolados”, ensinou.  O sofrimento talvez seja o elemento que mais faz com que nos identifiquemos com alguém. Conseguimos ver além dos rótulos e das ideias.

Essa mínima identificação pode gerar um fruto maravilhoso, um superpoder do ser humano, a empatia. A empatia, esse dom de entender o sofrimento do outro, de sofrer com ele, cria solidariedade. A solidariedade é o amor, nesse sentido não idealizado, em ação. Essa é a verdadeira cadeia do bem. E por ela é possível aceitar que podemos discordar em tudo e ainda assim não nos odiarmos por isso.

Ser tolerante é cultivar a cultura da paz, mesmo em meio às controvérsias. É ver no outro um ser como eu e tentar, contra as forças mais terríveis da nossa natureza, atravessar esses abismos que nos separam. Toleremos!

Ouça o podcast Jornadas do EU EP-18 Empatia é o segredo da felicidade?

Isaías Oliveira
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