Não estamos nem ai!!: O brasileiro é um povo triste

Este texto é como uma continuação do meu anterior, “Os brasileiros são um povo triste”. Aqui, eu pretendo exemplificar melhor o que eu quis dizer.

Não estamos nem ai!!: O brasileiro é um povo triste

O que me motivou a escrever isso foi principalmente a negligência que eu vejo muitas pessoas adotando em relação aos procedimentos de quarentena da COVID-19. Pessoas tirando a máscara para tossir, reclamando de “desrespeito do direito constitucional de ir e vir” por não poder entrar nos lugares sem máscara (aham, Cláudia, senta lá), não mantendo a distância necessária em filas, marcando festinha e churrasco, não limpando a mesa com álcool em restaurantes e refeitórios quando tem álcool para isso, entre outros “não estamos nem aí”. A gota d’água foi quando eu vi uma menina usando uma máscara NA TESTA, como se fosse uma bandana.

Seria isso simplesmente um resultado de falta de educação e pouco caso? Deixando bem claro que EM NENHUM MOMENTO estou endossando ou vitimizando as atitudes condenáveis que citei acima. Procurar explicações para fatos sociais não significa oferecer indulgência para estes fatos (assunto para outro texto!).

Antes de mais nada, o desrespeito às regras da quarentena revela um desprezo enorme pelas instituições, que em nossa história pouco fizeram além de nos oprimir. Por que agora elas estariam trabalhando por nós? “Deve haver alguma má intenção”, pensam os desconfiados brasileiros, “esse negócio de máscara e doença é só mais uma forma de atrapalhar nossa vida e favorecer os governantes corruptos!”. Desrespeitamos a lei porque não a reconhecemos, nunca foi feita por nós; nunca fomos uma democracia de verdade. A transgressão seria, portanto, uma forma distorcida de resistência, de rebeldia, uma tentativa infrutífera de quebrar o status quo, perpetuando-o em vez disso por estimular a cultura da corrupção.“Ah, mas quem está desrespeitando abertamente é principalmente a classe mais alta, que inclusive faz carreata contra a quarentena, e são esses que fazem as leis”. Aí é que está, lei no Brasil serve pra calar a boca de pobre, de marginal, de quem “não é gente”, como eu disse no texto anterior. “Se eu sou gente, um “cidadão de bem” não preciso respeitar a lei, não é a mim que ela é dirigida. Você está insinuando que eu sou igual a esses indignos? Eles têm que usar máscara, eu não!”.

Mas e o medo de morrer pela doença? “Melhor morrer do vírus do que morrer de fome”, disseram alguns contrários à quarentena.Brasileiro vê a morte e a desgraça todo dia, o que é uma desgraça a mais, uma a menos? Os números de assassinatos que temos são quase equivalentes aos de uma guerra civil. E mesmo assim não interrompemos nosso churrasco… como vamos saber se esse não vai ser o último? Cada momento de alegria do brasileiro é vivido como se fosse o último, como se no dia seguinte uma bala perdida pudesse acertá-lo ou perdesse o emprego, fosse morar na rua e nunca mais teria dinheiro pra fazer outro churrasco. Quinhentas mortes por dia? Seiscentas? Mil? Não faz diferença no mar de desgraças que o brasileiro vê desde que nasce. Sim, desde que nasce, pois nossa infância também é permeada pela naturalização da violência.

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Podemos ver isso por boa parte das nossas músicas infantis. Acho uma das coisas mais macabras do mundo cantar pra uma criança dormir, com uma voz doce: “Tutu marambá/Não venha mais cá/Que o pai do menino/Te manda matar”. Claro que temos muitos exemplos, Boi da Cara Preta, Atirei o Pau no Gato, Nana Nenê que a Cuca vem pegar, entre outros. Nosso sono de infância é embalado pela violência endêmica do nosso país, que é tão normal e cotidiana como um “boa tarde” ou o arroz com feijão do almoço. Aprendemos desde cedo a ficarmos apáticos e indiferentes à desgraça. (Não, não quero proibir músicas de ninar).

E não, novamente dizendo, não estou dizendo que o fato deste “pouco caso” do brasileiro em relação às instituições e procedimentos de precaução ter uma explicação cultural e sistêmica justifica e abona esse comportamento. Continuo indignada com a garota da máscara na testa. Mas sem entender esse fator tão importante da nossa cultura, que é a nossa melancolia crônica sublimada em carnaval, não nos curaremos nem da COVID-19, nem de nenhum dos nossos problemas.

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Petra Schindler

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