Liberdade de expressão: doa a quem doer?

Liberdade de expressão- doa a quem doer

 O especial de Natal de 2019 lançado pelo grupo humorístico Porta dos Fundos causou polêmica e dividiu opiniões. Afinal, pode ou não pode fazer piada com religião? Se sim, só com religiões dominantes, não com minoritárias? Se pode zoar religião, porque não se pode também zoar minorias oprimidas? Para seguir direitinho o artigo quinto da Constituição, tem que poder tirar sarro de tudo, sem restrições?

Antes de analisar isso mais a fundo comento que assisti o especial de Natal, e realmente (opinião minha, ninguém precisa concordar) achei a maior parte da piadas um tanto fracas, tipo botar Jesus falando palavrão do nada, sem haver muito contexto para isso (o problema não é especificamente ser Jesus), o que parece uma coisa até meio “quinta série” em certo sentido, parecido com aquelas pessoas que enfiaram crucifixo em “lugares indevidos” para “causar”, para dizer “olha como sou afrontoso(a), botei Jesus mandando alguém tomar no cu”.

Houve algumas partes interessantes, como as críticas irônicas a discriminação racial. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de várias pessoas terem criticado a retratação de Jesus como gay, como se isso fosse a coisa mais “ofensiva” do especial… quando tem algo muito pior: Deus assediando Maria, dizendo que a observa a todo momento, e continuando a assediar mesmo quando ela deixa bem claro que não quer nada. “Assédio sexual é de boas, coisa normal,  agora não vem falar que Jesus é gay, senão eu vou surtar, vou te mandar pra fogueira da Inquisição!” (insira tom irônico aqui)

Leia também : Religião Cristã e Ideologias Políticas, nossa fé na religião e na política

Mas deixando o Porta dos Fundos de lado por enquanto  e pensando no contexto geral: quais seriam os limites para o humor? Teria que realmente ser uma coisa totalmente sem limites? Se não, quais os limites saudáveis para serem colocados, e com que parâmetros? Como fazer com que isso não se torne uma polícia ideológica, para ambos os lados?

Para tentarmos entender isso seria bom explicar em linhas gerais o chamado “paradoxo da intolerância” do filósofo liberal Karl Popper. Recomendo a leitura desse link da Wikipédia para entender a questão superficialmente: O Paradoxo da intolerância

Ou esse outro link, que mostra essa ideia colocada em quadrinhos:
O paradoxo da intolerância em quadrinhos

Resumidamente, essa ideia se trata de que: para preservar a tolerência e a democracia em uma sociedade, ideias intolerantes não devem ser permitidas. E por que isso ocorre? Grupos intolerantes (de qualquer vertente ideológica) se impõem pela violência, não utilizam argumentos racionais para defender suas ideias. Conforme esses grupos vão ganhando o espaço, vão aos poucos “matando” o debate, fazendo todos jogarem com as suas regras, onde é somente o poder bruto que conta como palavra de ordem, e o único discurso permitido é o discurso de ódio proferido pelo grupo intolerante que impôs seu poder

Ou seja, não se deve ser tolerante com qualquer forma de expressão que contenha discurso de ódio. Ora, mas como se define se a mensagem passada contém ódio ou não? Verificando se ela não estimula, implícita ou explicitamente, a destruição ou a inferiorização de um certo grupo, seja ele uma minoria oprimida ou não (embora as minorias oprimidas sejam vítimas disso com muito mais frequência).

Um exemplo prático: por que chamar um negro de “negro sujo” é racismo, mas chamar um branco de “branco sujo” não é, desconsiderando a questão histórica de escravidão? Deve-se interpretar  o discurso oculto e sutil por trás da mensagem passada, que muitas vezes não está óbvio. “Branco sujo” dificilmente está se referindo a toda a categoria de homens brancos, mas somente àquela pessoa específica. Mas quando se diz “negro sujo” está sendo evocada a ideia errada, entranhada no inconsciente coletivo, de que todos os negros são sujos por natureza.

Claro, há uma grande diferença entre discurso de ódio e crítica. Por exemplo, geralmente quando alguém diz “odeio homens héteros”, não quer dizer que a pessoa os odeia em si, simplesmente por existirem, mas sim por conta de alguns comportamentos desagradáveis que este grupo pratica. Muitas das sátiras religiosas (principalmente com religiões cristãs) são nesse sentido: não se odeia o cristianismo em si, mas alguns comportamentos desagradáveis de alguns de seus membros.

Liberdade de expressão: doa a quem doer? Se REALMENTE valorizamos a liberdade, não.

Petra Schindler

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