Como é que se lida com ideias radicais?

Você já se perguntou por que algumas pessoas são tão violentas na defesa de suas ideias e não aceitam que haja discordância do que pensam, como se o que falam fosse a mais pura expressão da verdade? Em tempos como esse precisamos nos voltar para nós mesmos a fim de entendê-los, é isso que nos propomos aqui.

Como é que se lida com ideias radicais?

A pergunta parece que já nos deixa com uma complicação, a de que ideias radicais são sempre ruins. Mas isso não é verdade, algumas das ideias mais radicais que já deram as caras por esse nosso belo planeta foram excelentes para a humanidade de modo geral. A ideia radical, por exemplo, de que todos os homens são iguais. Dito agora parece estranho, mas durante a maior parte da história os seres humanos não foram iguais. Suspeita-se que na prática anda não sejam. Mais tarde o termo homem foi trocado por algo mais abrangente, ser humano. A gente ainda se debate com isso, e acho que a luta está longe do fim, mas a ideia, essa ideia radical, segue nos influenciando.

A ciência mesmo está cheia dessas ideias, e tanto melhor é uma ideia quanto mais revolucionária ela seja. E por aí vai em todas as áreas de atividade humana, de vez em quando temos que mudar radicalmente nossa direção. Certo, há ideias radicais que são realmente boas. Porém não só de ideias radicais boas vive a humanidade. Fascismo, nazismo, autocracias “socialistas”, teorias raciais, e tantas coisas mais provaram que nem sempre as ideias radicais são boas. Pior quando somos confrontados por elas, ou melhor, por movimentos alimentados por elas.

Existem casos em que não sobra nenhuma outra alternativa que não seja a força da lei, porque a continuação pode redundar em um grande prejuízo. Foi isso o que fizeram aqui no Brasil com alguns simpatizantes do Estado Islâmico, foram presos e processados. Isso pode ter evitado o crescimento do movimento. Porém o efeito pode não ser bom a longo prazo, pois criou mártires e nada dá mais fervor ao radicalismo do que a perseguição.

Obviamente a ideia pode ser simplesmente uma mescla de frases de efeito com um boa dose de carisma, sem muito fundamento, como parece ser o caso do nosso país nesse momento.

Muitas pessoas que seguem movimentos radicais o fazem porque aquele movimento deu sentido às suas vidas, supriu uma necessidade de pertencimento ou finalidade.

A violência, física ou verbal, fortalece esses vínculos. A pessoa perseguida sente que o é por estar certa, como se o a contradição fosse o selo de verdade da sua crença e sua adesão ao grupo dos “certos”. Para grupos marginais, a maioria sempre estará errada. O caminho subversivo é o correto, e todo aquele que não pertence ao seu grupo faz parte do domínio do grande Satã, da Serpente, dos iníquos e do mal. Com eles os cuidados do grupo não valem, e a destruição e morte é tudo o que merecem.

E essa é a história de todos os movimentos radicais, dos religiosos, étnicos, sociais às ideias políticas ou nacionalistas.

Todos eles partem do princípio de que existem dois grupos no mundo, o deles e o que engloba todos os restantes. Ambos não podem estar certos e um deles, o outro, deve ser erradicado.

O duro é que muita gente racional, cheia de bons fluídos, e adepta das melhores teorias sociais, acaba por reproduzir esses pensamentos quase sem perceber. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que criticam o maniqueísmo nos outros movimentos e as ideias de ódio, são elas mesmas as promotoras de ódio, pois cegam-se e embriagam-se com a ilusão da verdade daquilo que aceitaram, daquilo que receberam como meta de vida. E tudo bem racionalizado, mas numa racionalização que não se volta sobre o próprio pensamento.

A verdade é que tudo isso é instintivo, da época em que andávamos em pequenos bandos por trilhas nas florestas, repelindo e matando todos os que não eram dos nossos, pois representavam competição por recursos, e ameaça de extinção.

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Hoje “sublimamos” essa luta instintiva, projetando no mundo moderno os terrores da tribo. E cristalizamos no grupo, na ideia, na facção, na fé, os imperativos seletivos do bando. Por isso o discurso apocalíptico com relação ao outro, e sua associação com o mal. Porque o diferente significa perigo. E sobreviver é uma questão de superar.

Só vencemos isso em nós quando nos voltamos para nossas ideias, e pesquisamos em nosso íntimo as razões que nos impelem às lutas que travamos no mundo. Se fazemos isso honestamente, descobrimos que os motivos não derivam da nossa razão, mas do nosso medo instintivo.

Como é que se lida com ideias radicais? Identificando e criticando as próprias ideias. 

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Isaías Oliveira
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