ANESTESIA SOCIAL

E sobre como nos acostumamos rápido demais com a desgraça

ANESTESIA SOCIAL E sobre como nos acostumamos rápido demais com a desgraça

No fim de março recebíamos as notícias da Europa sobre o Coronavírus, epicentro da pandemia naquela época, nos chegavam números principalmente da Itália e da Espanha, com recordes que ultrapassam o número de mil mortes diárias. Eu lia, ouvia e assistia as notícias apreensivo e um sentimento de tristeza me afligia em frente ao tamanho da tragédia, mas hoje me deparo com uma tremenda ironia. Há semanas que não acompanho com atenção o número de mortes em meu país e me perco nas contas, o que sei dizer é “está na faixa de 1000 mortes por dia”, quando assisto a um noticiário que traz o lamentável número de mortes no Brasil eu percebo que este dado já não me afeta, olho de uma maneira tão fria como se estivesse escutando a previsão do tempo:

“E hoje no sul do país, como podem observar, o mapa está vermelho, com 58 mortes no Paraná. Agora vamos dar uma conferida no Nordeste, será que vai dar praia este final de semana?”

O Brasil atingiu pela primeira vez a marca de 1000 mortes diárias no dia 19 de maio, ou seja, faz mais de 2 meses que aquilo que eu considerava terrível, absurdo e inimaginável virou rotina e seguimos como meros espectadores da nossa própria desgraça.

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Nos acostumamos com tanta coisa para sobreviver, sim nos acostumamos, mas não devíamos, como nos alerta o poema da escritora Marina Colasanti ”…A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

O que é anestesia social ?

Hoje vivemos em um estado que chamo de anestesia social, nomeio desta maneira porque em termos médicos eu me encontro anestesiado quando o meu cérebro não reage a dor para que seja realizado algum procedimento cirúrgico e, em casos de anestesia geral, ocorre a perda total de consciência. A anestesia social aqui mencionada é muito similar a médica, pois os dolorosos acontecimentos do dia a dia simplesmente não nos afetam mais.

A anestesia médica é necessária em diversas situações, mas viver sobre uma anestesia social com a perda de consciência tem o seu preço e sem perceber nos acomodamos com o horror e dizemos “as coisas sempre foram assim”. Sentir uma dor não é uma coisa agradável, mas as mudanças só ocorrem quando paro de me anestesiar e busco o que me aflige, pois, sem o reconhecimento de que algo é incomodo, não há transformação, apenas uma normatização do que nunca deveria ser normal.

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É irônico, pois vivemos a era da informação e nunca tivemos tantos números, dados e gráficos que desvelassem a crueza da realidade. Todos os dias somos inundados com conteúdos através das mídias tradicionais e redes sociais, mas tudo isso apenas alimenta uma indignação passageira que tem como resultado uma opinião rasa frequentemente dividida apenas em contra ou a favor, mas que de real nada provoca. Avidamente consumimos informação atrás de informação e assim eu constato que nunca nos passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

A experiência segundo o Doutor em Filosofia Jorge Larrosa Bondía “é o que NOS passa, o que NOS acontece, o que NOS toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.” Sendo assim, a informação é a antiexperiência, pois lidamos com os estímulos constantes das informações com uma lógica de acumulação, porém, ela nada tem a ver com o processo educacional que requer reflexão e ação, ou seja, ela verdadeiramente só acontece quando algo nos atravessa.

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Creio que por isso conheço algumas pessoas que acumularam muitos títulos acadêmicos e profissionais mas não as considero sábias, no entanto, há outras sem título algum que encaram a vida com tamanha sabedoria e clareza de suas ações que confirmam que só aprende quem é capaz da experiência, e não o que só acumula informação.

Este texto ao fim é um apelo a mim mesmo, para que eu não me deixe ser anestesiado pelo turbilhão de informações, para que eu não aceite o inaceitável, para que eu não me acostume com o que não devia e para que eu encare as experiências da realidade e, por mais que elas sejam dolorosas, que eu me permita ser tocado por elas e tenha força para mudar o que precisa ser mudado neste país.

Ariel Pascke
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