A vida se conta nos dedos

Um conto que vale a pena ser contato

A vida se conta nos dedos

Choro. Ma, mah, man, mã, mão…a mão do bebê tem um dedinho, miudinho, mindinho, dedo mínimo. Examina a mãozinha com o braço para cima. Percorre com o olhar todas as suas linhas, mas o dedo pequeno que segue a linha do braço o fascina. Ele é a primeira fase da vida. Fase em si mesma dividida. O tempo caminha devagar, as coisas tão novas, as cores tão vivas. É difícil entender o mundo das pessoas grandes, mas algo lá fascina tanto, a ponto de querer que chegue logo, querer ser grande. Aqui a vida ainda permite a magia, as coisas não se encadeiam, elas acontecem. Percorrer os dias, testar os limites dos membros e a tranquilidade dos adultos.

Horrível! Mas que imagem é essa no espelho? Levanta a mão agressiva. O olho fixa-se no segundo dedo, aquele dos anéis, o anelar. Na escola ensinam a conjugação dos verbos. “Anelar” está na forma infinitiva e significa “desejar com força”, mas tudo é tão estranho com tantos desejos. Um momento está no abismo, noutro sobe ao paraíso. Sabe tudo e não sabe nada. Só precisa ser aceito pela tribo e livrar-se desses adultos que querem pôr coleiras na gente.

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O dedo médio sobe com revolta. Ele é o maior quirodáctilo, que é o termo para “dedos da mão”. A revolta foi diminuindo, o dedo agora em riste mostra já um início de desilusão indiferente. Podia ser dito com um palavrão. Mas as obrigações se avolumam, e com elas as contas. Tornou-se o adulto que combatera, ainda jovem, já menos arrogante, ou não. Ainda há espaço para sonhar, mas quem pode sonhar com uma reunião pela manhã? Nenhum chefe é gente boa, menos eu, se eu for. Nesse estranho espelho da vida, a pessoa se torna o que combate. De vez e quando solta uns suspiros nostálgicos, pensando no adolescente e seus dramas, e na criança e suas brincadeiras. Mas o que é esse jovem que mal chegou a ser grande?

A mão sobe com o indicador apontando para a imagem no espelho. Se a infância é curta e a adolescência confusa, a vida do jovem adulto é sua soma. O quarto dedo da mão é a quarta instância da vida. Não se é mais jovem, ao que tudo indica, mas também ainda não se é velho suficiente para se ter certeza de todos os caminhos que tomou e os que ainda deve tomar. O que se sabe é que a juventude escorreu, deixando ali, às vezes, uma nódoa de aparência jovem. O tempo flui rápido, os anos voam, mas a aposentadoria parece tão longe. Eu podia ter feito diferente, mas já ando mais calmo, até ensaio uns lances de felicidade com o que tenho. Os filhos podem estar perto de serem adultos. Agora eles vão ver, sim senhor, agora vão ver como é. Seu filho? Não, meu neto. Seu neto? Não, meu filho. Tardei a tê-los, os filhos. E a vida? A vida? Positivo!

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Positivo. O polegar opositor apontando o céu, os outros dedos já se recolheram. É porque falta pouco, por isso esse é um dedo tão curto. Mesmo maior, fica abaixo do mindinho, do mínimo, como você sabe. É curto, mas grosso. Não pense besteiras, engrossou pelas durezas da vida. Não são todos os que encontram espaço para a felicidade, é que se sabe que os dias são poucos, e que muito foi desperdiçado pelo caminho. A revolta agora é só contra essas costas que não param de doer. O doce não parece tão doce e a gente vai vendo criança sendo moída pela máquina de fazer velho. Envelhecer é ir se apertando pelo túnel por onde se acabou de nascer, e não é na mamãe que se fala quando se fala isso. Ensina os mais jovens, mas eles não ouvem, que seja para quando chegarem aqui apertarem as mãos com esse sábio arrependimento que agora sente. Os dias são curtos, as noites são longas, mas a família é grande, se não está sozinho, se não está abandonado. Na infância se prepara a terra, na adolescência se faz o plantio, rega-se a planta na vida adulta, colhe-se na maturidade, e limpa-se o campo na velhice. É a fase do tudo cheio que termina no tudo vazio. Mas é assim, esvaziar o campo para que algo novo possa ser plantado.

O sol entra pela janela, a mão acima, cada dedo um momento, a mão se abre, a mão se fecha e o choro infantil na boca do velho se faz novamente silêncio.

Isaías Oliveira
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